As campanhas antitabagistas em geral, assim como as pessoas em volta do fumante, simplesmente querem que eles parem de fumar, mas não consideram que estamos falando de uma das dependências químicas mais difíceis de lidar. Isso ocorre porquê a nicotina (substância química presente no tabaco) tem altíssima capacidade de gerar dependência ao ser ingerida. E, apesar da falsa sensação de bem-estar que esta substância dá ao organismo, sua retirada é um dos principais desafios ao parar de fumar, justamente pelo mal-estar da abstinência.

Vem daí a importância de uma postura de compreensão e acolhimento ao tabagista e, ao contrário de críticas, apoio nas possíveis estratégias para se cessar o hábito de fumar. A experiência mostra que, ao seguir esta abordagem, o processo de deixar de fumar poderá ser uma experiência muito mais efetiva, já que estará baseada na consciência desse individuo sobre o lugar do cigarro na sua vida e não apenas cumprindo um roteiro, pré-estabelecido, um manual de instruções sem considerar o fator emocional e a individualidade envolvidos neste processo.

Da química para o emocional

De 7 a 19 segundos após ser inalada, através do cigarro, a nicotina atinge o cérebro e vai agir no Sistema Nervoso Central liberando várias substâncias conhecidas como “neurotransmissores”, que estimularão um mecanismo neurológico, responsável por gerar a sensação de prazer, modificando assim o estado emocional e comportamental da pessoa que fumou.

Assim como acontece com outras drogas (cocaína, heroína ou álcool), o indivíduo terá o seu comportamento alterado de forma “não natural”, mas, sim em decorrência da ação de uma substância psicoativa.

Conforme a pessoa repete este comportamento, ingerindo continuamente nicotina, o cérebro vai se adaptando a essa entrada de estímulo ou “prazer artificial”. O corpo passa a exigir doses recorrentes, de acordo com cada organismo (maior ou menor tolerância à substância). E é nesse momento de inserção rotina cotidiana e de “instalação do hábito” que a pessoa passa a criar simbolismos e significados em torno do cigarro: fuma-se na alegria, na tristeza, o cigarro amigo, o cigarro remédio, o cigarro do almoço, o da noite, assim nomeados, conforme o momento.  Quando o hábito está estabelecido, fuma-se pela necessidade de reposição da nicotina, aliviando (ou evitando) o desconforto da abstinência, muitas vezes interpretada como um “conforto trazido pelo cigarro”, ou seja, uma sensação ilusória de prazer.

Como em outras adicções, no tabagismo não temos uma dependência apenas “química”, trata-se de uma questão biopsicossocial: fatores biológicos na química da nicotina e as outras milhares de substâncias contidas no cigarro, fatores psicológicos nas emoções e afetos envolvidos no comportamento de fumar e fatores sociais na cultura e ambientes estimuladores para início e manutenção do hábito de fumar, ainda que tanto já tenhamos feito pela conscientização dos prejuízos.

A partir desse entendimento sobre o hábito de fumar e a relação de difícil manejo com o cigarro ao tentar parar de fumar, percebemos a importância de profissionais preparados para demandas de cunho “biopsicossocial”, seja na condução de processos psicoterapêuticos ou no encaminhamento para equipe multidisciplinar.

E a PSICOTERAPIA, o que tem a ver com o Tabagismo?

Se na construção da dependência “química” os fatores comportamentais e emocionais estão diretamente implicados, o processo psicoterapêutico promove a oportunidade de olhar para esses aspectos: a história com cigarro e os fatores afetivos de influência, sensações projetadas como acolhimento, conforto e companhia, além das implicações sociais (família, trabalho, amigos).  

Na psicoterapia breve focada, com especialista na cessação do tabagismo é possível conhecer todos os aspectos envolvidos no padrão de consumo individual para diagnóstico do nível de dependência (química e emocional), conhecer e discutir estratégias para o momento de cessação, acompanhar e discutir os primeiros dias sem fumar, além de construir estratégias para manutenção saudável da abstinência. E, sempre que necessário, discutir o encaminhamento para especialistas que possam contribuir com o tratamento.

Além de poder falar sobre suas angústias e aflições, o que promove diminuição de sintomas ansiosos como a própria compulsão envolvida no tabagismo (a repetição de um comportamento pode amenizar a ansiedade, por isso se estabelece um ciclo de retroalimentação).  Num segundo momento da psicoterapia, o processo volta-se para a elaboração da “despedia” e as mudanças decorridas no processo, ressignificando as projeções antes alocadas no cigarro, refletindo e recriando “a vida sem fumar”.

Parar de fumar é um “processo” que exige coragem para iniciar e serenidade para respeitar cada fase a ser percorrida. Contar com a ajuda de um profissional especialista, pode tornar este caminho mais seguro e, quem sabe mais suave.